quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A verdade...

Sabe quando dizem que a verdade liberta?
(Sim, não é bem esse o ditado, mas enfim...)
Pois é.
Até liberta mesmo. Te leva para um outro caminho. SE você tiver estômago.
Porque, quando você toma conhecimento de uma verdade muito BOSTA sobre si mesmo, ela não te liberta assim, instantaneamente.
A verdade só vai te levar a um outro caminho depois que você passar dias, semanas, porra, até mais do que isso, se arrastando na sua própria baba e lágrima se sentindo uma bosta e pedindo clêmência. Ferida, dilacerada, arranhada, ardida, meio que vendo seu corpo antigo ali, morto. E mesmo assim se agarrando a ele pra que não vá embora. É o que você conhece há anos, aquele corpo.Mas agora você tá aqui, ferida, dilacerada, ardida, se arrastando na sua saliva, pedindo clemência.
E se você passar por isso, ainda tem que ter estrutura suficiente pra não voltar do BURACO QUE VOCÊ TAVA ENFIADA esse tempo todo, que tava ruim, vá lá, tava sofrido também, mas ao menos não era esse sofrimento todo. Lá você conhece. É o seu nível basal de sofrimento. É uma bosta, mas né? É seu, só seu. Não tem ninguém te mostrando seu lado merda, mesmo que nem queira mostrar.
Se conseguir parar de pedir perdão e se levantar, se você conseguir enterrar o corpo, se você não voltar tão rápido quanto o crush indo pra sua casa depois que você falou que tá sozinha, SE você passar por tudo isso e ainda sobrar alguma coisa... Aí talvez a verdade te liberta. Talvez.
Depois vem a prova. Depois vem aquela situação que é a realidade SOCANDO TEUS DENTES GARGANTA ABAIXO. E aí?
Qual vai ser o tamanho do sofrimento?
Você vai fingir que tá tudo bem? Ser atriz? Invocar a dama toda poderosa adulta bem resolvida?
Talvez a verdade só nos liberte quando tudo isso for realmente internalizado. Quando não doer mais. Ou quando não se disfarçar mais a dor do processo pra ninguém, porque vai tomar no cu, eu não tenho que ser perfeita toda hora, eu menti mesmo, eu fingi que tava de boa. Não está. Não tô aceitando.
 Só que eu não quero mais enfrentar nada. Eu to agarrada ao caixão. Eu só quero voltar pro buraco da onde eu vim.
Mas já tá tudo escancarado na minha frente. Agora é muito tarde, né?

[O silêncio. Depois, o som da TV ao fundo.]

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